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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

IMAGENS DO NATAL

Pela lâmina de vidro

de dentro do carro

vou atravessando a cidade

de ponta a ponta...

É noite em pleno dezembro

e da sombra negra das casas e prédios

pendem inúmeros pingentes de luz

de modo que retiro o que disse antes (sobre a sombra negra).

Tudo está tão claro.

          As lojas maquiadas em tons dourado e vermelho

          os postes e as praças cheios dos cuidados do governo

          as árvores com colares da copa ao tronco.

          Por toda a parte purpurinas elétricas a capturar nossa atenção

          com a eficiência que já não sei se ainda têm

          as estrelas, cada vez mais distantes,

          como cada vez mais raro é o gesto de olhar para o céu.

Também vejo gentes.

Não são como a lâmina de vidro da janela do carro,

o colorido das lâmpadas não as atravessa.

Poros, pele, carne, osso incapazes

de deixar a luz vir de fora para dentro.

(Sobre o caminho inverso

meu ponto de vista se embaralha).

          Então preciso observar que,

          a multidão, nas cidades,

          feição distorcida,

          olhos que não piscam,

          ombros deprimidos,

          não é adequada para a festa.

          Assim, para uma boa imagem do natal

          deve-se ficar atento

às lentes

ao enquadramento

à nitidez.

(publicado na exposição "cartão de natal" do Sesc Arsenal/2007)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Infância

Da parede da sala
os olhos saltam
para um dia de chuva qualquer
em que a rua virava festa de última hora
e estar sob o céu em cachoeira
era uma liberdade sem precedentes.

Depois vinha o jogo da fita
o esconce-esconde
a queimada
e correr pelo mundo
era pegar a sorte pelos cabelos.

Um barulho qualquer
provoca a viagem de volta
e os olhos
(trazendo um pouco de água)
deixam a foto na parede
 e saem da sala.

A infância é aquela saudade
que, quando a gente visita,
sente cheiro de café passado
e um aperto no coração.

(Poema para Beth Figueiredo de Sá - publicado no livro "De criança a aluno"- EdUFMT)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Espaço para um autor especial

EMA EMA EMA
CADA UM
COM SEU POEMA
                                               (Ivan - 5 anos)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

TAXAÇÕES

O sonho feito de nuvens e das melhores intenções

faz tantos caírem.

Em caso de morte,

a repercussão vale o mito

vale o herói e a heroína.

A história é generosa

com as cabeças fora do corpo.



Sorte pior a dos sobreviventes.

Portas fechadas e pelas janelas

cerrado horizonte.



O pão repartido não passa de mera representação.

O sangue derramado é fato

mas de tanto se repetir

perdeu a força do símbolo.



Definitivamente

somos uma espécie mal catalogada

e proibida de fraternidade.

(Sete Dias, 2007)

sábado, 2 de outubro de 2010

CHUVA

Não param de cair
estrelas inusitadas
do céu de tuas palavras
de fina sutileza.
Eu, cada vez mais
inundada
e apercebida
dessa beleza.
(Partido, 1997)

domingo, 19 de setembro de 2010

44

Ontem amanheci com 44 anos
e dois homens me desejando
todo o amor do mundo.
Um deles foi mais longe:
-Mamãe, mas eu desejo
que você viva o infinito
e que você não morre nunca.

(entre outras coisas, depois,
confirmei minha numerologia:
4 no nome
4 na data de nascimento
8 é a soma: infinito).

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SATURAÇÃO

Nada mais há de original no mundo.
Registram-se nascimentos e mortes
a cada segundo.
Noticia-se simultaneamente
perdidos e achados.

A poesia se debate
por um possível novo tema
e satura-se cada vez mais de solidões.

Quando chover,
talvez a paisagem se renove.
(Partido, 1997)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

DRAMA II

Não há mais espaço
para a fome das multidões.
(O infinito está em fim de carreira).
Cercadas de ilusões,
alimentam-se do revoltante cotidiano
e vomitam miséria nas praças
onde frágeis flores se desesperam
pela ausência de jardins.

(Partido, 1997)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A pagar

O amor tem um lápis
no bolso da camisa azul
pra fazer contas
que o tempo possa apagar.

sábado, 28 de agosto de 2010

MANDATO

Tecem no escuro
destino
pra barriga alheia.

Escurecem o tecido
barrigudo
de alheio destinatário.

Embarrigam.
E já não há o que tape
tantos destinados.
(Divisas, 1991)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

neorapunzelborralheira

cortaram  meus sonhos
minha força
meus cabelos.
Perdi meus sapatos
meu caminho de ida e de volta
meu baile de amor.
Danem-se as modernas formas de viver.
Não é digno a uma mulher
andar num pé só.
Danem-se mais ainda
os itens antigos de fragilidades.
Eu só preciso de uma escada.
Descer e subir
sucumbir e crescer
dou conta.

domingo, 15 de agosto de 2010

carta aberta

Hoje parece ser um dia igual aos outros.

Mas eu sei que não é. E sei que não sei

quando começou e onde vai dar

o dia do descanso.

É estranho o tempo do ócio entre as palavras.

Na falta do que fazer, tenho levado ao pé da letra

aquela frase sobre o princípio.

De fato, o verbo foi fazendo Deus.

Mire e veja.

No espelho da página, imagens se debatem.

Umas convencem, outras arruínam.

Mas os dias estão contados.

Do que me resta, digo: não posso distinguir

pescador e peixe

corpo e sangue

criado e criador.

No mais,

curto o vento,

a rede é grande.

(Em: Sete Dias, 2007)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

DESAFIO

há uma perplexidade à frente
o verde é infinito
é de banhar
a sede das metades
é de beber
de dar vontade.
             As vistas são várias
             e a ilha
             é o estar aqui
             feito pêndulo limitado
             a balançar  o tempo.
O desafio está na face de todas as coisas
             e a profundidade atrai
             o distante e o prazer.
             O pretexto para a âncora pode ser um sonho
             mas navegar não é perigoso.
Somos todos marinheiros.
E a palavra
mesmo a não dita
é uma primeira viagem

(publicado em Divisas, em 1991)

sábado, 17 de julho de 2010

ou seria céu de julho, 17?

Bbbbbrrrr

Céu de junho.
A noite chapada
- densa coberta negra -
se contorce num arrepio.
Traga de um jeito esquisito
uma fumaça gelada
e devolve
do fundo de seus pulmões ressentidos
uma onomatopéia do frio.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

AMBIGUIDADE

O mundo
está no fundo.

Quem o conhece
sem lhe ter
detém a esperança.

O mundo
Só.

Por isso
me confundo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

SOBRE

Sente o pensamento que chega
sente como o ar se retrai
sente como doem os livros
que contam as coisas
onde pensamos não caber.
Sente como a pele
se renova em segundos
enquanto o dia tende a crescer.
Sente a linguagem invadindo o cosmos
mesmo que não saibas
como vieste parar aqui.
sente ou deixa tudo como está:
palavra sobre palavra.

sábado, 19 de junho de 2010

poema de domingo

louvado seja
o senhor
que alimenta
a bandeja.

domingo, 13 de junho de 2010

FASES

gosto de você

sem saber por quê.



Não é o jeito

com que influencias

o rigor dos meus hábitos.



São os dias

propícios à semeadura

em que me sinto cheia

mesmo minguando

ou quase vazia.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Liquidação

sonhos para uma noite confortável
mãos para o afago e a arte
pés para os caminhos seguros
olhos para ver além
boca para não dizer amém
vida.
Tudo off.

sábado, 22 de maio de 2010

Sobriedade


Bebo
um gole atrás do outro
do rio que passa manso e convicto
no teu olhar.
Conheço um pouco de peixes
um pouco de algas
um pouco de seixos.
Bebo mais
e o mundo cresce
nas tuas retinas.
Antes de me embriagar
completamente
tateio o amor capturado
nas margens
do que me exaure e me fascina.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Namoro

Vou passando a mão
numa
noutra
e o fim da carícia
é a escolha
(nada fácil).
Gosto ao mesmo tempo
do desleixo e do alinho
das palavras.
Gosto das que ficam
e desejam um enlace ardente
profano, profícuo
e se estendem
no gozo da leitura.
Também gosto das que escapam
e deixam aquela impressão
de incaptura e
perda total.

sábado, 8 de maio de 2010

Intervalo comercial

Ama depressa
que não há tempo para jogos
nem de dados nem de charme
ama com o amor que tiveres na manga
antigo ou novo em folha
rapidamente que não garantimos
sobrevida fora da bolha
ama aí mesmo debaixo da escada
e cuida que o azar no amor
não te dará algum dinheiro
não pense nos prós e contras
na teoria e nas contas
ama apesar da moda
dos obesos dos nem tanto e dos tísicos
sem levantar hipóteses
deixa aos físicos
o aviso sobre as ilusões
ama sem a nostalgia do vinil e da rádio am
ama logo sem a obsessão da alma gêmea
espécie de incesto platônico
não te dissipes com princesa ou príncipe virtual
com que copulas nas madrugadas
e no intervalo para o almoço
na ausência do chefe
na ausência especialmente
de um amor de carne e osso
ama mesmo com esse amor estropiado
por inumeráveis contingências
além do que pode este poema
ama passando da medida
de peso altura ou profundidade
com que tens aferido a existência
ama com todo desejo
não aquele de habitar a lua
mas o de ir à esquina para a cerveja ou o café
ama imediatamente
com ou sem rima refrão música tema
ceticismo desilusão ou fé
quem procura demais
nunca acha o sapato torto
ama criatura o tempo urge
se não podes cumprir as exigências da alma
ao menos não dispenses o corpo.

sábado, 24 de abril de 2010

sábado

Deduções

Com tormentas à vista
navegar é difícil
arrisca-se o carregamento da memória
e a empresa no devir.
O porto assim sendo
é lugar de onde não se quer sair.

De costas para as águas
megafones nas ruas
anunciam vagas na arca
- vozes de assalto e repetir.
O mar assim traduzido
é perigo nos cantos de seduzir.

Para monstros e tempestades
cindindo firmamentos e miragens
há o Deus vingativo (como no slide da infância).
Seu nome assim evocado
lota palácios e templos
por mercadores de linguagens.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Preferência

Não leio certidões
já faz um tempo.
Não entro em cartório
raramente em igrejas
(assisto desatenta a casamentos).
Não me encanto com
melodias e enredos
típicos desses tempos
em que as boas histórias
jazem nas estantes
ou vivem sob risco
nalguma memória.

Não freqüento salas de conversa
e a tevê quase sempre apresenta
um repertório que aborrece
meu desejo de invenção.

O que eu gosto mesmo
é da letra escrita
no pé do ouvido
meio sem vergonha
sem testemunhas
e flashes fotográficos.
Eu gosto mesmo é
daquelas coisas que fazem
qualquer filhodedeus se sentir
nas nuvens tocando o céu
mandando e desmandando
chuva
na terra.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A poesia me justifica

Busca

Passeio entre folhas secas
neste bosque de palavras.
Estarei pisando na morte
enquanto a vida se ergue
fora do alcance?

Um tronco se ramifica
e as linguagens se reproduzem
para uma beleza
que talvez nunca se complete.
Estarei pisando na morte
enquanto os sentidos
desperdiçam seu pólen?

Quem busca respostas sabe
que essa é tarefa
a se cumprir no futuro.

Aliança


Minha prece do dia
meu preço de vida
é este papel.
Uma hóstia que engulo
não sem antes
mastigá-la.
Sei que morro
daqui a pouco
mas aqui me deixo
comungado.
Depois serei ex.
Como tudo, aliás.
E porque suspeito
de que o passado esteja no futuro
canto o presente
como uma morte
que não é tristeza.

Pretensão ou pressentimento
meu presente
é a palavra
é o pó
e a lavra.